29 de novembro de 2014

Talvez

"É que eu ainda penso, e digo que não, mas volto a procurar". (Taís Alvarenga)


A verdade é que a gente estuda, trabalha, sai e conversa na tentativa de se distrair. Só pra colocar a cabeça no travesseiro e lembrar do que evitou o dia inteiro. 

Depois das dez horas, seria mais uma noite como qualquer uma das outras: entrar em casa, abrir a porta do quarto sem fazer barulho, escovar os dentes, espalhar o corpo sobre a cama depois do banho, e finalmente fechar os olhos até pegar no sono. Seria, eu disse, se não fosse por uma curta conversa antes de chegar.

Não me dei conta da tristeza dos meus olhos até que outro par de olhos notasse, não reparei a fragilidade da minha voz até que um ouvido atento percebesse que algo estava errado. Esqueci completamente do peso que havia nas minhas costas, até que alguém se importasse em saber porque eu estava a carrega-lo. 

De repente, não pude evitar a pergunta: o que eu faço com toda essa bagagem?

Há tantas memórias dentro de cada mala que eu não sei dividi-las entre boas e ruins, tantos momentos embrulhados como se fossem um presente que eu não abro, nem revelo. Tantos rostos quantos se podem contar, e eu conheço todos eles. 

Há infinitas outras possibilidades atrás de cada decisão tomada, infinitas respostas que não foram ouvidas esperando por uma única pergunta. Infinitos "e se..." escondidos em compartimentos de fundo falso: a primeira vista estão vazios, mas desdobrados, confessam-se.

Cada objeto constitui um detalhe importante, como peças que se formam em um quadro, que fará sentido apenas se elas estiverem juntas. Cada passado que eu trago é íntimo e demasiadamente significativo para que seja preterido, cada traço de um futuro desejado se constrói dia após dia, fundamentado nas experiências que tive e no que forjo delas.

Parece complexo? Talvez, digo literalmente, nem sim, nem não. Instiga ou afasta? Nenhum dos dois, ainda estamos no meio da descoberta.

23 de novembro de 2014

No Meio Do Caminho Tinha Um Animal, Tinha Um Animal No Meio Do Caminho

"É mais um dia de trabalho duro sob um sol escaldante. Não tenho carro, não uso ônibus e desconheço outro meio de transporte além dos pés que me sustentam. Sou eu quem corre sozinho em busca do meu próprio alimento, atrás de uma maneira de sobreviver. Tenho uma família linda, mulher e dois filhos ainda bebês. Eles precisam de mim, assim como eu preciso deles, e não penso em mais nada além do nosso bem. É mais um dia de trabalho duro sob um sol escaldante, mas hoje eu não voltei para casa. Minha vida foi interrompida por um automóvel na estrada, meu corpo permanece estirado no chão duro sem ninguém para recolhe-lo. Minha carne secará até que todos os passantes vejam apenas os meus ossos."


Poderia ser a história comovente de qualquer trabalhador rural que ganha seu sustento a beira das avenidas e trevos de uma grande cidade, mas não. É a realidade da nossa fauna: mamíferos, répteis e aves, mortos todos os dias nas rodovias do Brasil sem que alguém se dê conta.

Diariamente, centenas de estudantes, inclusive eu, fazem o mesmo trajeto entre Palmas e Paraíso. Durante uma dessas idas e vindas, notei pela janela quantos animais mortos eu via, são 63km e naquele dia contei quatro, praticamente um para cada quinze quilômetros rodados. Foi então que uma luz de percepção se ascendeu: eu não estava apenas diante de uma pauta, mas de uma causa ambiental que merece olhos e ouvidos atentos a respeito.

A necessidade humana de transporte e expansão agrícola fragmenta continuamente o meio ambiente e destrói o habitat natural de diversas espécies. Segundo a pesquisadora Valeska de Oliveira, a rodovia e o fluxo de veículos são uma barreira ambiental para animais que, seguindo seu instinto de sobrevivência, atravessam as estradas com o objetivo principal de marcar território, procurar alimento e acasalar. A falta de políticas públicas para a resolução do problema agravam ainda mais o quadro.

O setor responsável dentro da capital é a Secretaria do Meio Ambiente. Já em estradas intermunicipais, a incumbência está a cargo da CIPRA - Companhia Independente de Polícia Militar e Ambiental. Em todo o estado do Tocantins, porém, não existe nenhuma elaboração ou estudo neste sentido.

Em uma conversa com um membro do IBAMA-TO, fui informado a respeito do trabalho de uma universidade em Minas Gerais. A Universidade Federal de Lavras (UFLA) - através do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE) - realiza um importante trabalho em todo território brasileiro, recentemente reconhecido em uma reportagem no Jornal Nacional.

Preste atenção. A cada ano, 400 milhões de animais silvestres são atropelados no mundo. Somente no Brasil, são 750 mil atropelamentos, o equivalente a mais de 2 mil vítimas por dia. Os números, fornecidos pela própria UFLA, mostram que não se trata de um ou outro acidente, muito menos de sensacionalismo ecológico. Pelo contrário, revelam o perigo de extinção a que a nossa fauna está exposta. Como é o caso, por exemplo, da anta brasileira, um animal de ciclo reprodutivo lento (cerca de dois anos) e uma das maiores vítimas das estatísticas. 


Em parceria com a Sociedade de Zoológicos e Aquários no Brasil (SBZ), o CBEE fundou o dia nacional de Urubuzar, uma data em favor da conservação da fauna no Brasil. Acontece em 15 de novembro e tem como meta reunir 200 pontos focais em todo país para realizar as mais variadas ações de divulgação e sensibilização da sociedade para os impactos de rodovias e ferrovias à biodiversidade. 

Qualquer cidadão pode entrar em contato e colaborar, projetando ideias dentro da sua instituição ou comunidade local. Inclusive, há um grupo disponível no Facebook com detalhes da campanha, vídeos e outros materiais explicativos. Um grande passo tecnológico criado recentemente é um aplicativo chamado "Urubu Mobile", que permite ao usuário enviar dados confiáveis e padronizados diretamente ao próprio centro, com a finalidade de mapear geograficamente onde acontecem os atropelamentos da fauna silvestre no Brasil.

Nesta lista de dizimados constam principalmente raposas e cachorros do mato. Tatus, preguiças e tamanduás de diferentes espécies também são encontrados com frequência. Dentre as aves, destacam-se corujas, curiangos e bacuraus. Anfíbios e répteis sobrem semelhante impacto, porém por motivos óbvios, bichos de médio e grande porte são mais facilmente identificados dentro do registro.

A principal responsabilidade é do poder público. Placas educativas e radares eletrônicos se mostram úteis na redução dos casos. A longo prazo e de maior custo, a instalação de túneis e outros tipos de passagem de fauna que assegurem a travessia de animais, inclusive para macacos e micos através de estruturas arbóreas são a melhor saída. Contudo, pequenas medidas entre condutores também pode fazer a diferença, uma direção defensiva e consciente, além do respeito aos limites de velocidade é um começo.

Eu gostaria de escrever uma nova história no início desta reportagem, e gostaria mais ainda que você, leitor ou leitora, ajudasse. Chamo a responsabilidade para aqueles e aquelas que tem a oportunidade de ler as minhas palavras, chamo a reflexão cada homem e mulher que vê dia a dia nossos bichos perecerem. A solução não está somente nas mãos de a, b ou c, mas na tomada de consciência individual de que não estamos isolados. Somos princípio de um meio (ambiente) que não pode ter fim.

12 de novembro de 2014

O Índice

Como qualquer lista que se planeja escrever, eu comecei devagarzinho, procurei nas memórias, pontuei as qualidades, ignorei os defeitos. "Por que eu gosto você?" era uma pergunta frequente que, não necessariamente pedia por resposta, mas patinava pela minha cabeça como uma criança inquieta. Como qualquer raciocínio que se desenvolve aos poucos, eu desisti de negar esta ideia e passei a simplesmente abraça-la.  

A minha primeira conclusão é que o sentimento não surgiu de propósito, não estava roteirizado como outro romance decorrido, nem armado com joguinhos de conquista do tipo "ligo eu, liga você". Nada foi planejado, sabe? Nenhum dos encontros, nenhuma das conversas de madrugada, nem mesmo o silêncio quando algum de nós, desajeitado com as palavras, não sabia o que dizer.

A minha segunda conclusão é que o meu afeto veio graciosa e independentemente de qualquer atitude sua. A verdade é que eu gosto de verdade, a graça do que eu sinto é que  sinto, sim, de graça. Porque pra ser sincero, não existe nada em comum quando olhamos um para o outro. Aliás, não é o simples fato de sermos diferentes, mas a peça que o destino nos pregou, resolveu unir exatos opostos.


Talvez eu goste de você porque, enquanto me esbaldo em junk food, seu olhar cai em resignação ao mesmo tempo que discutimos "onde está a salada?". Talvez eu goste de você porque, passado um ano, ainda não decidi se prefiro gatos ou cachorros, enquanto sua vontade é abrir o próprio zoológico debaixo do nosso teto. Talvez eu goste de você porque quanto mais pareço irritado ou aborrecido, menos você parece me levar a sério. Talvez eu goste de você porque nas minhas tentativas de comandar tudo, é a sua voz que tira o controle das minhas mãos e me faz ceder mais uma vez, semelhante a outras.

A lista de motivos cresce, mas pontualmente censuro alguns deles. Imagina que vergonha se alguém descobrir que você me conquistou um pouquinho mais na noite que tentou dançar comigo numa coreografia fora do ritmo. Deus sabe que nem nossos passos vão para lados iguais. A propósito, eu poderia colocar seu jeito ingenuamente charmoso e errôneo de pronunciar palavras em inglês, ou este é um segredo nosso? Por favor, diga-me antes que eu feche as anotações.

11 de outubro de 2014

Não Peça Pressa


Não foi a primeira vez, mas era como se fosse. Tinha toda a inocência que qualquer início carrega em si, como se nenhuma decepção tivesse atravessado seu caminho, como se o coração não tivesse se partido antes. Guardava na memória dos olhos todos os detalhes daquele encontro casual, desde o cheiro do perfume que invadiu o carro ao entrar, até as pálpebras sonolentas e satisfeitas no final.

Fiado em palavras bonitas, ditas ao pé do ouvido, encheu-se de esperanças e expectativas. Sem nada que lhe garantisse, sem provas de que um sorriso bonito era também verdadeiro. Ingênuo, esqueceu-se das vezes - e elas foram muitas - em que a mesma boca que prometia permanência se transformava em uma caricatura sem graça, ensaiando uma desculpa qualquer, ou pior, cerrada em um silêncio incompreensível.

Acreditar não parecia errado, não até o dia seguinte, mas o Sol nasce e traz consigo a inquietação pelas vontades que não estão claras e pelos desejos que não se concretizam. Acreditar não parecia errado, mas a realidade insiste em chamar e ela sempre diz a mesma frase: "não era pra ser, não com você".

Alguns laços são mais curtos que outros, mas não significa que corta-los seja menos doloroso. Aceitar os passos separados é um processo, uma cura gradual que não pede pressa.

27 de julho de 2014

Friend or Foe?

Eu me lembro de quando a nossa cama era o lugar em que eu me sentia mais seguro. Recordo do seu cheiro sob as minhas narinas e da paz que eu sentia e precisava em cada canto daquele cômodo. Eu me lembro de quando nos escondíamos entre travesseiros e lençóis e fazíamos do colchão a nossa morada. Se você estivesse comigo, eu ficaria ali pra sempre. Hoje o quarto não é nada além de um campo de batalha, mero anfitrião na guerra particular de corações partidos.


As nossas armas não são de fogo, nem nossos escudos feitos de ferro. As palavras que usamos machucam muito além do corpo, atravessam o peito e desfalecem a alma. A frieza dos olhos e o rancor transformado em silêncio constroem muros ao redor de qualquer bom sentimento. Nossa maior defesa é o medo de chorar outra vez no final.

No meio da troca de tiros, ofensas gratuitas lançadas de um lado para o outro, aniquilamos o afeto em nome da razão. Sacrificamos beijos, abraços e sorrisos para provar quem está certo. Aquele que mantiver o orgulho por mais tempo ganha, mas é somente o nosso amor quem perde.

Quando cogito rendição, ergo meus braços cansados e chego a pensar que a minha derrota seria a nossa separação, mas você nunca me impede. Mentira minha. Olha nos meus olhos e pergunta: "é isso mesmo que você quer?". Então todos os meus planos de desistência caem por terra, e eu esqueço cada uma das vezes em que ensaiei formas de me despedir.

Quem sabe eu deixe tudo como está, ou talvez eu comece a empacotar meu coração em caixas e guarde o romantismo para dias melhores. Por enquanto, deixo o perdão nas suas mãos, na esperança de que o nosso duelo finalmente morra e nós voltemos a viver.

9 de julho de 2014

Gravidade

Eu tenho que me despedir, mesmo sem vontade, mesmo sem forças pra dizer "adeus". Eu tenho que ir embora, ainda que o teu querer me peça pra ficar, ainda que eu me arrependa um instante depois da partida.

Os olhos não derramam mais lágrimas, porque agora é o peito quem chora. Chora baixinho pra ninguém escutar, chora sem energia, quase sem fôlego. Chora porque neste instante você é meu único motivo pra permanecer. O resto deles me engoliu, revirou-me em seu estômago, e me expulsou violentamente. O incômodo é mais forte, a vergonha também. 

Contigo, eu quase acreditei que sonhos poderiam se realizar. Por pouco, seu amor tirou meus pés do chão que me prendia e me ensinou a voar. Mas o mundo é cruel, e a lei da física e dos homens me chamou de volta, hoje eu vou voltar pra Terra, para debaixo dela e descansar.

De todas as saudades que eu carrego, a maior delas será te ninar nos meus braços, te colocar pra dormir. Levo no bolso alguns trocados e muitas dúvidas, mas cabe ao futuro, não a mim, responde-las.

O meu trem está vindo, contínuo e cada vez mais veloz. As malas estão feitas, não preciso levar muita coisa. Pra onde eu vou não há lugar pra dois, não há canetas pra escrever, nem papéis pra pôr ideias. Há paz, a calmaria que eu sempre procurei.

17 de junho de 2014

Quando O Sol Se Pôs

Acabou, não como das outras vezes, de mentirinha. Agora o fim é verdadeiro, tão concreto quanto o chão que eu piso, mais doloroso do que um soco na boca do estômago.

Acabou, não como das outras vezes, cheias de conversas e dramas intermináveis. Agora tudo é calmaria, e o barulho que enchia o quarto de discórdia cessou. Não há mais conselho amigo, nem conciliação depois das brigas.

Acabou, não como das outras vezes, onde a gente sempre procurava um culpado. Agora que pouquíssima coisa sobrou de lembrança, quase nenhuma tem importância, e nosso lamento é uma delas.

Acabou, não como das outras vezes, quando eu escrevia cartas de divórcio e você as rasgava. Agora não precisamos de escrita, nossa conclusão já está selada.


"I always thought it was sad the way we act like strangers. After all that we had, we act like we were never met." (The XX)

14 de junho de 2014

Mistura De Dois


Efeito colateral é a consequência de uma causa, é o fruto da semente plantada um dia, é o romance prenunciado entre uma ação e suas infinitas reações.

Primeiro a insistência, depois o remorso. Insistimos e gostamos de falar, lutamos ao invés de nos render, escolhemos ficar ao invés de ir embora. Se a gente soubesse como as coisas são no fim delas, tomaríamos outras decisões? Se um relance do futuro nos fosse apresentado, haveria menos lamento? Ninguém sabe além do que se vê, e é por isso que existe o arrependimento. Talvez das atitudes repentinas, dos corações que cativamos ou partimos, das palavras impensadas e da língua sem censura.

Efeito colateral é a alergia que nos acomete no lugar da cura, a prisão que sucede o julgamento de um crime, o sono que entorpece quando, na verdade, gostaríamos de estar de olhos bem abertos.

Primeiro a escolha, depois a perda de controle. A vontade se torna intenção, a intenção já é esquema premeditado e o esquema se faz atuação. Em seguida, game over. Nenhuma força ou poder, nenhum homem ou ser espiritual, nem espaço ou tempo, pode apagar diálogo, desmanchar beijos, sufocar a esperança que nossas promessas inspiraram.

Porque as nossas ações são como peças de dominó enfileiradas, que caem uma após a outra, uma reação em cadeia dada por um simples toque inicial. Da mesma maneira que cinco minutos de coragem mudam o destino de uma vida inteira, a fraqueza momentânea arruína sonhos, despedaça expectativas e põe ponto final em qualquer plano idealizado. 

Não existe aplauso para cortinas que se fecham, ou para luzes que se dissipam. Apenas um palco vazio. A companhia e a solidão do que fizemos e de quem nos transformamos.

8 de maio de 2014

À Deriva

"This moment keeps on moving, we were never meant to hold on" (Jack Johnson)
 

Eu fui seu por uma noite. Somente por algumas horas seus braços embriagados pararam ao redor do meu corpo. Apenas seu colchão, e nenhum outro, foi espectador dos nossos beijos. Eu fui seu por uma noite. Sem pressa, sem pedido formal ou plano antecipado. 

Não marcamos encontro, nunca fomos um casal. Tropeçamos um no outro e formamos um par por acidente, de um jeito que ninguém poderia imaginar. Livres. Porque para romance impensado não existe começo, muito menos fim. É um meio permanente, como um daqueles marca página que divide antes e depois, que anuncia em silêncio "paramos aqui". 

Eu sei que não nos tornaremos passado e jamais teremos um futuro. A nossa história é como o seu cheiro, não durará mais um dia, e sairá facilmente da minha camisa, assim como os meus pés se desenrolaram dos seus quando amanheceu e eu precisei ir embora. 

Não guardo foto, não tenho telefone e nem tive tempo de perguntar o que gosta de comer no café da manhã. Você nem sabe que "Gross" é meu segundo nome. Sua alma quer envolver o mundo e conhecer lugares que eu já cansei de visitar, seu coração bate por novidades que o meu, experiente e fatigado, não pode oferecer.

Até dedicaria aos seus ouvidos alguma canção bonita, e te entregaria meu coração no decorrer dos nossos passos, se eu pudesse. Mas não é o caso. Nossas pegadas continuarão separadas e as perguntas que seus olhos me fizeram sem respostas.

É por este motivo que você se tornou recordação, que eu quis te transformar em escrita. Abro as páginas e lembro, a memória de uma noite permanecerá.

5 de maio de 2014

Na Minha Roda

Gosto de mesa de bar, calçadas aconchegantes e bancos de praça familiares. Gosto pela cumplicidade que doam a mim e aos meus pecados, pelo silêncio que me oferecem quando lhes confesso segredo, pelos inúmeros risos que trouxeram a cada chegada, por testemunharem a angústia dos olhos em todas as despedidas. 

Gosto de copo cheio, pés no asfalto frio e vento suave na nuca. Gosto porque nenhum deles me julga, não são capazes de me lançar qualquer olhar torto e, nem sequer uma vez, preocuparam-se em me dar conselhos da Carochinha que eu encontraria facilmente na sessão de auto ajuda da livraria mais próxima.


Gosto das histórias que a mão não se permite escrever e boca não pode contar. Vontades insanas, intenções incompreendidas e experiências libertadoras que poucos aceitariam dividir. Sentimentos mesquinhos, dúvidas que assustam e uma lista extensa de pequenos delitos que, com a perdão dos especialistas, ninguém consegue tratar.

Gosto dos lugares e das pessoas mais improváveis, onde estão os ouvidos sempre atentos e as respostas mais sinceras.

20 de abril de 2014

Aritimética

Perdoa meu fungar no seu pescoço, roubando seu perfume e atrapalhando seu sono de cinco em cinco minutinhos. Perdoa a minha maneira desastrada de rolar e te abraçar sobre a cama, que inevitavelmente quase sempre te derruba. Perdoa meu déficit de atenção e a forma randômica com que eu mudo de assunto e atropelo sua conversa sem perceber.

Perdoa a mania insistente de cantar quando estou feliz, geralmente de forma estridente e ao pé do seu ouvido. Perdoa a falta de jeito com os números e cálculos tão simples, e o trabalho que eu te dou na hora de somar e dividir as nossas contas. Perdoa a minha obsessão por Pokémon, a implicância com as series que você assiste e por achar impossível concluir aquele maldito jogo, 2048.


Perdoa a minha vontade de ser seu pai e brigar pelas coisas mais idiotas que existem, até mesmo as que você não consegue mudar. Perdoa os momentos que, por outro lado, eu pareço seu filho, e você precisa me lembrar de comer na hora certa, e de cortar os cabelos e as unhas, inclusive as dos pés. Perdoa as minhas mordidas e as cócegas que eu te faço, mas não me culpe pela sua sensibilidade.

Perdoa a minha pressa, que já escreveu nosso futuro sozinha e escolheu o nome dos nossos filhos sem te perguntar. Perdoa, por favor, a percepção tardia do amor que eu sinto, é que a distância confessou-me hoje o crime da saudade. Perdoa, por último, a minha literatura tão curta, tão comum, incapaz de expressar tudo que tenho pra te dizer pessoalmente quando eu chegar.

2 de abril de 2014

Separação

Definitivamente, eu não sei lidar com a alegria. Este sentimento de calmaria que invade o corpo quando tudo parece bem, quando os cômodos da nossa alma estão limpos e mobília no lugar, quando o coração está em ordem e uma placa na porta avisa "Não perturbe". Definitivamente, eu me esqueço com facilidade do que é bom. Basta uma surpresa, uma irritação. Basta um pouco de as-coisas-não-saíram-como-o-esperado e aqui estamos nós. Mordo os lábios, coço a nuca, arrasto móveis. Vejo poeira velha em tapetes novos, ignoro o aviso acima e ponho em bagunça o que levei semanas, quiçá meses, para ajeitar.

Não sei se é amargura, esse desgosto pelo contentamento. As desconfianças, os comprimidos, as noites sem dormir, os livros de Clarice, os capítulos de Dexter - o serial killer. A gente se constrói com os tijolos que encontra no caminho, e como é difícil derruba-los. Não sei se é tédio, essa vontade inconformada de não pertencer a lugar nenhum. As pessoas, o clima, as fotografias, as luzes de uma metrópole, a areia fininha no fim de tarde da praia mais próxima. São 25 anos de lembranças, como se eu fosse 25 álbuns ou cartões postais, como se eu tivesse 25 ou mais lados diferentes.

Não faço da razão minha bandeira, eu abracei outras causas. Mas entendam, mesmo e a cada vez mais resignado, ainda posso questionar. Mesmo e cada dia mais sem respostas, ainda me permito a poesia que inspira meus dedos. Afinal, toda esta escrita é torta, porque não procura fazer sentido, nem busca ser linear. Já foi registrada muito além dos olhos curiosos que passam por aqui, no segredo que separa escritor de personagem, no lugar que divide o homem do menino.

10 de março de 2014

Carta Àquele Que Cresceu

Olá.

O que te aconteceu? Nós fingimos entender porque detestamos tocar no assunto, mas de vez em quando eu ainda me pergunto. Guardo minhas teorias em silêncio, escondo por medo de ofender, tenho o cuidado de respeitar as suas crenças, mesmo que elas me pareçam sem razão, mesmo que me confundam muito mais do que expliquem. 

Onde você foi parar? É que apesar de caminhar todos os dias ao seu lado, eu não te reconheço. Os olhos grandes e brilhantes de bichano deram lugar a um par opaco de vista, o corpo alado ganhou raízes, que de tão profundas não te permitem mais voar. E chego a pensar no sorriso, mas dele não sei escrever, quase não o vejo mais.

Quem você se tornou? A sua resposta se tornou mistério, e desvenda-lo significa achar o motivo que cortou o nosso laço, que desfez a nossa ligação. Significa pôr um fim a diálogos que se cruzam, mas são intocáveis entre si. Porque barba farta, óculos caído e saia rodada não me comunicam, nem fazem confissões. São todos de fora para dentro, nunca de dentro para fora.

A minha própria conclusão é que talvez você cresceu e agora seja assim, como Clarice disse uma vez, triste e solitário como qualquer outro adulto.

6 de março de 2014

Barulho

Foi a primeira vez que ela não disse nada. Aprendeu desde cedo que confiança era um presente caro, e agora parecia cada vez mais difícil dá-lo. Foi a primeira vez que ela guardou as palavras para si. Contra tudo que acreditava, esconder o que sentia e fingir um sorriso era a melhor alternativa. Ele sorriu de volta, certo de que estavam bem. 

Foi a primeira vez que nenhum deles trocou boa noite. As vezes, o tempo passa e deixa os detalhes para trás, a falta de zelo evidencia a sujeira que impregna entre os dias. Foi a primeira vez que ela deixou um espaço na cama, mas o espaço não estava vazio, porque a frieza dormiu entre os corpos como um animalzinho de estimação. Ele se virou, e nem notou a mudança.

Naquela noite havia uma desconfiança nos olhos inquietos dela que ele não conseguia enxergar, um cansaço colado ao peito que insistia em questionar: ainda vale a pena? Depois de tantas vontades ditas e promessas não cumpridas, ninguém mais sabia a diferença entre gostar de alguém ou simplesmente acostumar-se à sua presença. 

Naquele quarto havia uma tranquilidade nos olhos sonolentos dele, uma certeza de que ela era sua e nada - nem mesmo seus deslizes mais nocivos, mudaria isso. Apesar de ignorar cada pedido e permanecer inerte mesmo quando se afastavam, ele estava convicto do seu papel de bom Romeu, e nenhum outro o cumpriria tão talentosamente.

Naquela noite, dentro daquele quarto, morreu silenciosamente o amor dos dois.


"Porque eu só beijo quem amo, só abraço quem gosto, só me dou por paixão. Eu só sei amar direito, nasci com esse defeito no coração." (Maria Bethânia)

14 de fevereiro de 2014

Aos Calangos e Calanguinhos

Eu não sei como funciona para os outros, e nem me interessa. O que eu sei é que a minha escrita é verdadeira, é uma parte íntima, são pedaços de várias histórias. Eu não conheço o que inspira a maioria dos autores, e nem preciso saber. O que importa são as experiências que vivo e vejo ganharem corpo, na forma de palavras que escorrem entre os meus dedos até se tornarem literatura. Hoje é diferente. Pela primeira vez, eu escolhi não falar de amor. Pela primeira vez, eu decidi não fantasiar, nem desenhar um quadro bonito. Esqueçam as molduras suaves e o olhar sensível, esqueçam a delicadeza dos sentimentos costumeiros, esqueçam a preferência pela poesia. O assunto não permite, a realidade suprimiu o poeta.

O Bloco A foi marcado duas vezes. A primeira, nunca esquecerei, foi quando Calangos munidos de pincéis e sprays nas mãos ousaram colorir todas as paredes do prédio com suas ideias, sentimentos e expressões. Digam que o resultado é um desastre estético, digam que as frases são medíocres, digam qualquer coisa porque não importa, uma nova era foi inaugurada. Estávamos acostumados aos tons cinzas e tristes, mas de repente vibrávamos em uma nova cor e quem esteve presente foi testemunha do que digo. A segunda, ainda ontem, foi quando o Jornal Mural foi publicado e, como esperado, causou uma reação em cadeia instantânea. Eu li com sede e espanto como se os parágrafos me chamassem, como se um medo curioso instigasse os meus olhos a continuar mesmo que boquiaberto. Toda revolta já sentida, todo recurso até então negado, tudo que um dia passou pela cabeça de qualquer estudante estava ali, real e concreto. Eu li e reli enquanto pensava incrédulo: "o silêncio foi quebrado!".

Mas antes que pudéssemos comemorar, antes que qualquer docente ou autoridade acadêmica se pronunciasse, vieram as críticas. Adivinhem de onde? Dos próprios alunos. Colegas que acompanham a luta, sabem das nossas misérias e do abandono que sofremos como curso há uma década. Dez longos anos. Colegas que não tiveram o cuidado de observar que o produto passou pelo crivo de um editor responsável, a professora que ministra a disciplina está consciente de cada linha escrita. Então de quem é a culpa? De ninguém. Não permitam que todo contexto do jornal, que pede socorro em nome de um curso falido, seja derrubado em favor dos egos inflados e ofendidos. Uma nota jocosa feita por crianças de 20 anos não é mais importante que uma instituição irresponsável ou uma administração escusa que deixa toda uma categoria a mercê da própria sorte, que subsiste alimentada de migalhas. 


Eu quis escrever para dar clareza às pessoas que, com dignidade, desejarem ouvir. Peço apenas uma coisa. Não percam o foco, jornalistas, não se percam no meio da caminhada. Enquanto não nos cansarmos de tentar, mesmo ao tropeçar no erro, existe esperança. Termino indignado, mas em paz, apoiado por Millôr Fernandes quando diz: "Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados".

7 de fevereiro de 2014

Sete Copas

Éramos três amigos e eu - quero dizer, ainda somos - acostumados a sentar ao redor da mesa de um bar e assistir a noite cair, acostumados a discutir quase sempre sobre temas irrelevantes e a falar sobre o que vivemos, sentimos e pensamos, não necessariamente nesta ordem. Éramos três amigos e eu, cada um com sua opinião, cada qual com sua maneira de enxergar o mundo e um jeito particular de tentar muda-lo. Não havia qualquer garçom que nos servisse, nem comanda que controlasse o nosso consumo, naquele recinto uma ficha era a sorte de mais uma rodada. Pedíamos certezas na garantia que aguentaríamos o porre de realidade no dia seguinte, mas rotineiramente estávamos de ressaca, prontos para vomitar nossas inseguranças de novo. Em goles lentos, absorvíamos o que cada dia esperava de nós e o que esperávamos de nós mesmo. Em goles apressados, dávamos um fim as garrafas cheias de um vazio torturante.


É difícil explicar por quê aquele lugar se tornou nossa testemunha, e eventualmente mais que isso, nosso cúmplice. É difícil explicar, e talvez nem haja justificativa, mas é como se ali nossos crimes fossem perdoados, nossas dores encontrassem cura, nossos medos se dobrassem diante do copo e do ombro mais próximo. Não há maior estima que um ouvido atento. Há um carinho que escapa entre as frases sóbrias, mas transborda naturalmente em meio a boêmia, existem certas palavras que o corpo parece não escutar, mas que a alma recebe com prazer, um companheirismo que se anuncia em um brinde e é retribuído com os olhos. Eu desperdicei várias chances de ser claro antes, bobagem e arrependimento meus. Não mais. No barzinho mais simples da cidade, debaixo da copa de uma árvore, eu propus um pacto sobre a mesa: seremos sempre três amigos e eu - a partir daquela noite e espero que por muito tempo.