23 de fevereiro de 2017

Chuva

Você sabia que fui promovido? Sabia que Chico adoeceu, eu bati o carro e o salário não durou até o final do mês de novo? Você sabia que deixei meu cabelo crescer? Sabia que, finalmente, tirei os planos do papel e marquei a viagem pra Brasília em abril? 

Você sabia que qualquer notícia, boa ou ruim, dá vontade de correr pra te contar? Qualquer sorriso, eu gostaria de sorrir com você. Qualquer lágrima, eu gostaria de poder chorar nos seus ombros. Ao invés disso, eu escrevo. Vivo uma espécie de engano, como se a poesia curasse a saudade, como se a distância fosse resolvida com caneta e papel.

Depois que o clima mudou, toda vez que chove, peço pra água limpar suas pegadas, levar seu perfume e também as suas palavras. Toda vez que o vento sopra, peço pra ele arrastar os vestígios depois da tua chegada. Nunca sou atendido e, pensando bem, nem acho que seja possível. 

Você está em todos os lugares, menos aqui. Não nos foi dada a chance da despedida. Afinal, tudo que eu tinha pra dizer preservei comigo na esperança que, um dia, você voltasse sem medo. Tudo que você sentia permaneceu escondido do seu lado da cama, no mistério dos seus olhos pretos. Não entendo, nem consigo aceitar, que você saiu pela mesma porta que entrou sem ao menos uma explicação. Eu compreenderia se você escolhesse me manter como um bom amigo, perdoaria os deslizes e nós ainda estaríamos conversando na nossa calçada preferida, mas não estamos. Você sequer nos deu esta opção.

A sua ausência incomoda como mancha de camisa que não saiu, como a ideia de uma pedra que ficou no sapato. Incomoda mais ainda fingir e fugir do assunto, como se a gente não tivesse se deixado pelas metades, como se fizesse sentido nos tratarmos como absolutos estranhos. É a minha verdade quando Falamansa canta "eu não sou ator, e se sinto dor, tenho que chorar".

Eu só queria paz. Sem beijos, sem brigas pelo travesseiro, sem ofensas gratuitas ou ciúmes disfarçados. Vamos manter a promessa que fizemos, nem atrás, nem a frente. Lado a lado, mesmo que agora em caminhos paralelos.

31 de dezembro de 2016

Como Elis

Eu quero me curar do que é passado.

Há um peso nas conversas que tenho, nos textos que escrevo, nos compromissos que agendo. Existe um disfarce atrás de cada linha e de cada sorriso que dou. Uma covardia em forma de blog, que me faz acreditar que contar ao mundo seria o remédio que evitaria uma conversa a sós.

Nós, que já estivemos sentados em meu tapete, não temos mais contato, nem trocamos emails ou cartas. Nós, que dividimos cama e sobremesas de palito no congelador, usamos agora uma comunicação telepática. Em cada encontro por acaso, é um olhar que não chega a falar, é quase dizer, mas desistir no meio do caminho.

Na tentativa de te punir com palavras, quem saiu castigado fui eu. Movi alguns móveis de lugar na esperança de fazer parecer jovem, uma casa empoeirada de lembranças e mágoas. Por não limpar a mobilia, o pó subiu, espalhou-se, tornou-se motivo de alergia e irritação. Os dias passaram e não sararam a raiva guardada, e a minha espera foi como segurar a água que sai da pia, uma burrice, um esforço inútil.


O tempo, dizem, é a resposta para tudo. Mentira, você sabe, ele nunca é amigo dos ansiosos. Apesar disso, estou pronto para desfazer este nó no meu estômago, estou preparado para ser livre do sentimento de culpa. Minha consciência está madura e meu coração está aberto para perdoar e esquecer, porque minhas mãos não suportam mais carregar uma bagagem que vale por dois. 

Quero a sensatez de um adulto, e a leveza de uma criança. Quero te abraçar e te reconhecer como outro alguém. Quero cantar como Elis, quando diz "o novo sempre vem".

18 de novembro de 2016

Pergunta

Algo sempre me traz de volta a este lugar. Sentado a beira da cama, um bloco de rascunho apoiado em meus joelhos, uma caneta Bic na mão. Algo sempre desperta a vontade de escrever. Às vezes é saudade, às vezes é tristeza, e da última vez foi maldade, e hoje?

Hoje foi uma pergunta. "Você sabe o que é o amor?", disseram. Eu, que geralmente nunca sou pego de surpresa, não sabia o que responder. Eu, que tenho tudo na ponta da língua, gastei uma tarde inteira até encontrar um argumento que me coubesse. 

É que não gostaria de ser leviano, desculpem-me, mas não acredito no amor Beleza Americana que Hollywood cultivou. Este amor quente, apressado, irracional, geralmente de curto prazo, comumente com um final trágico. Amor é se doar, mas tememos fazê-lo porque, no fundo das palavras não ditas, esperamos que todo carinho venha com a certeza de retorno. Se não vier, e daí? Amar é não esperar nada em troca. Amar é colocar o outro em primeiro lugar, e qualquer coisa fora disso é somente suprir carência. Perda de tempo, uma bobagem. 


Quando alguns dias são mais cinzas que outros, por exemplo, costumo me lembrar que o amor nunca muda e que o afeto mora nos detalhes. Na ligação que pergunta se está tudo bem, na voz que diz "vem aqui", na camisa velha que enxuga as lágrimas, na paciência de assistir um filme pela 5º vez apenas para arrancar mais uns sorrisos. Quando algumas estações são mais frias que as outras, adestro meu coração a recordar do que lhe aquece: a companhia de quem veio e, por ternura, decidiu ficar. Um, dois, três, cinco anos, não importa. Que todo xodozinho dure tempo suficiente para nos ensinar a aceitar o bem querer que nos é dado.

3 de outubro de 2016

Ser Real

O que a gente faz quando a ira bate a porta? Quando é criança, chora. Quando é jovem, xinga e cora. E agora, adulto? Parece que toda raiva se torna tristeza, chateação ilegitima, sentimento fora do lugar. O que a gente faz quando rabiscar e rasgar textos, como quem mastiga e engole a mágoa, não resolve?

Existe uma alternativa poderosa, que vem a partir do momento em que abraçamos a indignação, ao invés de nos sentirmos vulneráveis. Nos dois casos estamos obviamente devastados, mas a agressividade pode ser uma proteção mais segura do que as lágrimas. Não é vingança, nem devolver na mesma moeda. É colocar para fora o que nos deixa doentes e nos mantém confusos, é conversar conosco e com a nossa percepção do outro, e não há absolutamente nenhuma culpa nisso.

Meu irmão, meu irmãozinho, eu estou furioso com as mentiras que você contou, com os convites que você não fez, com as dúvidas e desconfianças que você plantou. Meu companheiro, meu amigo íntimo, a minha mão vai alcançar o seu rosto, mas não com o mesmo carinho com que alcançou suas calças. Eu vou tatuar as paredes da sua casa com a nossa história, vou escrever nossos segredos nos seus portões.


Por favor, não diga nada. Eu sei o quanto é difícil para você ouvir outra pessoa por mais de dez minutos, e encontrar soluções como alguém maduro. Encarecidamente, olhe nos meus olhos. Eu imagino como é duro encarar as consequências pela primeira vez, e não ter sua mãe pra arrumar a bagunça, como arruma o seu cabelo de gel. 

As minhas palavras serão como socos em ponta de faca, como tecla que se aperta exaustivamente até perder a função. Afinal, tudo já foi dito, é burrice repetir. Mas se elas não servem mais a você, servem a mim. Eu aceito ser o antagonista do papel de bom moço, que você interpreta tão bem. Aceito ser Lúcifer no seu ouvido até que você reconheça a minha voz. Ela só vem te lembrar do que você já esqueceu: ser real.

24 de agosto de 2016

Descompasso

O que é te que incomoda a alma? O que tira a tua paz? Quais são os medos que passam pela tua cabeça feito carneirinhos que você conta antes de dormir? Em que eu posso te ajudar? É que eu já estive aí onde você está. Várias vezes. Sozinho. Desconfiado. Confuso. O 'sim' é sempre falso quando te perguntam "você está bem?".

Afinal, o que é estar bem? A frase sai automática, mas a verdade é que a gente nem sabe mais o que isso significa. Chegamos aos 20 e poucos anos com a promessa de sermos bem sucedidos financeiramente e mentalmente estáveis até os 30. Aparentemente, o máximo que nos espera é o peso das costas de quem tem 70.


Você quer abrir mão e ao mesmo tempo recomeçar. Quer insistir, mas não tem razão pra continuar. Quer falar, mas se explicar nunca foi o seu forte. Quer sossegar a cabeça no peito de alguém, em algum cantinho frio, em qualquer travesseiro novo com cheiro familiar, mas não acha este lugar. É tanto querer que "tropeça na própria vontade, corre para fugir, mas nunca para chegar". Desistir no meio do caminho é uma tentação e uma solução mais fácil que tentar.

Nós dois não passamos de crianças inconvenientes, ingênuas, energéticas e de emoções intensas. Não passamos de adultos amargurados, incoerentes, cheios de segredos e tolerados por poucos. Nossos sentimentos andam neste meio termo, e não há coração no mundo igual ao nosso, que bata neste ritmo sem harmonia, sem sentido.