15 de fevereiro de 2018

Post It

Você chegou numa época que eu me torturava com despedidas sem fim, embriagava-me com conversas arquivadas e gostava de perfumes antigos. Você surgiu num momento que meus textos tinham um gosto amargo de decepção e coração partido. Você veio num tempo em que, verdade seja dita, eu estava praticamente acostumado a ser o tipo que Alanis descreveria como "quanto mais trágico melhor". 

Você apareceu como um post it na tela do computador, que me lembrava de gargalhar mais por motivos tolos, como o café na minha caneca preferida, que certamente faria meu dia melhor, como uma ida repentina a Taquaruçu, que vale todo esforço depois de um mergulho na Roncadeira. 

Quando julguei que evitar pessoas era a saída para todos os problemas, sua mensagem chegou às 3 da manhã para dar o veredicto contrário. Afinal, eu encontrei alguém que gosta de todas as coisas que me ensinaram a odiar em mim, como meu jeitinho rabugento ao acordar e a minha sinceridade desmedida. Talvez Deus não tenha ouvido minha prece para te manter distante, porque você não acredita nele. Ainda bem.

Não é que o seu afeto seja cego, mas é compreensível, paciente e compassivo. A sua admiração por mim é como um trampolim que me impulsiona a ser melhor. Nós aprendemos que quanto mais mãos estendidas, menor é a solidão durante a caminhada.

Você disse que nunca me viu chorar, mas é que na sua companhia eu só sei rir. Obrigado por cada vez que a sua mão alcançou a minha, pelo colo que se transforma em travesseiro e por saber cozinhar com pouquíssimos ingredientes. Se eu te agradeço é porque não sinto mais medo, o seu amor cura meu coração todos os dias. 


 
"Quem diria que seria tão bonito assim viver? Tão bonito assim olhar alguém?" (Vanguart)

5 de novembro de 2017

Drew, Você Estava Errado.

Meu amigo se declarou hoje.

Exato. Abriu o coração, falou sobre o que sentia, desnudou-se diante de outro alguém para alcança-lo. Um gesto admirável e uma atitude de poucos, eu diria. No primeiro momento, fiquei perplexo, depois, reflexivo. Faz quanto tempo não fazemos o mesmo?

Há alguns anos, quando ainda usávamos o MSN Messenger para nos comunicarmos, eu lembro do Drew dizer "Hg, sentimentos expostos servem somente para serem pisados". Daquela época desde então, eu teimei algumas vezes e devo ter escrito uma ou duas cartas de amor. Depois parei, ou desisti, se preferir colocar dessa forma. Parei de acreditar em paixões, passei a acreditar no Drew. Não que os amores tenham morrido, junto com a vontade de colocar cada sentimento para fora. O romantismo continua aqui, presente e constante, mas ficou guardado para quando valer a pena. Só que esse dia nunca chega.

Afinal, qual o problema em dizer "Eu quero te conhecer"? O que há de errado em pronunciar em alto e bom som "Sua presença me faz bem, vamos nos ver de novo"? Por que tememos reconhecer nossa vulnerabilidade ao falar "Não sei explicar, mas não consigo parar de pensar em você."?

Talvez se a gente não racionalizasse tanto, e se protegesse tão intensamente, e parasse de encontrar desculpas que nos servem bem. Talvez se a gente se preocupasse menos com a resposta e mais com tirar o peso das palavras não ditas dos ombros. Talvez se a gente fosse mais humano, nós seríamos também mais felizes.

Meu amigo se declarou hoje.

Seguiu seus instintos mais primitivos. A sede pelo cheiro, pelo toque, pelo olhar. A vontade de ser e estar, de aproveitar a oportunidade dada, de se tornarem um só. Poderia ter dado tudo errado, mas deu certo. Quanta coragem nos falta para fazermos o mesmo?

24 de setembro de 2017

Tudo Bem

Eu tentei.

Como toda pessoa que pretende recomeçar, dei um passo adiante rumo ao perdão e disse a mim mesmo "Tudo bem, acontece". Como todo coração que deseja ser livre do ressentimento, retoquei a nossa história para tornar a bagunça que você deixou mais compreensível depois da tua partida.

Decidi preservar nossos primeiros encontros na felicidade da memória, e desejei profundamente apagar as últimas discussões que tivemos. Foi um começo intenso, um meio torto e um final que até hoje pede uma explicação, uma conversa, uma alternativa. 

No processo, descobri que escrever um texto após o outro pode ser uma excelente maneira de extravasar, mas é um alívio efêmero. Parei. A verdade é que não importa quantos capítulos eu tenha produzido a seu respeito, nenhum deles foi capaz de me curar de fato. A despeito de todos os meus desabafos, ainda tremo ao ouvir seu nome. Imaginar sua chegada sem aviso, para dividir uma mesa e um lanche qualquer depois de um rolê, ainda faz meu coração afundar.

É que a dor perdura.

Doeu saber que de repente você estava preparado para se apegar, e que o amor agora era um amigo com quem você podia fazer planos. Doeu ver as fotos e as carícias trocadas em público, doeu porque não era eu ao seu lado. Doeu e continua a doer porque eu me sinto injustiçado, negligenciado e, principalmente, insuficiente. 

"E se eu tivesse a barba farta? E se eu me tornasse emocionalmente mais maduro? E se eu aprendesse a tocar violão e minha voz fosse afinada para te cantar Rubel?". A gente quer racionalizar o afeto como se fizesse alguma diferença, como se sentimento tivesse fórmula, como se um relacionamento fosse uma lista de requisitos a ser cumprida. 

Não, não é. Tomar responsabilidade do meu lado da narrativa ajudou a entender que as minhas expectativas, aliadas aos medos e inseguranças, também foram nossas inimigas. Assumi para mim mesmo que, ao que nos concerne, as coisas aconteceram exatamente como deveriam ter acontecido. 

Agora sei que você não vai voltar pra pedir desculpas, nem para fechar a porta que deixou aberta, mas eu me viro sozinho, pode deixar. Prometo não te vilanizar mais. Na próxima vez que a gente se encontrar, quando você me perguntar se eu estou bem, espero responder que sim, não porque esteja, mas porque vou ficar.

23 de fevereiro de 2017

Chuva

Você sabia que fui promovido? Sabia que Chico adoeceu, eu bati o carro e o salário não durou até o final do mês de novo? Você sabia que deixei meu cabelo crescer? Sabia que, finalmente, tirei os planos do papel e marquei a viagem pra Brasília em abril? 

Você sabia que qualquer notícia, boa ou ruim, dá vontade de correr pra te contar? Qualquer sorriso, eu gostaria de sorrir com você. Qualquer lágrima, eu gostaria de poder chorar nos seus ombros. Ao invés disso, eu escrevo. Vivo uma espécie de engano, como se a poesia curasse a saudade, como se a distância fosse resolvida com caneta e papel.

Depois que o clima mudou, toda vez que chove, peço pra água limpar suas pegadas, levar seu perfume e também as suas palavras. Toda vez que o vento sopra, peço pra ele arrastar os vestígios depois da tua chegada. Nunca sou atendido e, pensando bem, nem acho que seja possível. 

Você está em todos os lugares, menos aqui. Não nos foi dada a chance da despedida. Afinal, tudo que eu tinha pra dizer preservei comigo na esperança que, um dia, você voltasse sem medo. Tudo que você sentia permaneceu escondido do seu lado da cama, no mistério dos seus olhos pretos. Não entendo, nem consigo aceitar, que você saiu pela mesma porta que entrou sem ao menos uma explicação. Eu compreenderia se você escolhesse me manter como um bom amigo, perdoaria os deslizes e nós ainda estaríamos conversando na nossa calçada preferida, mas não estamos. Você sequer nos deu esta opção.

A sua ausência incomoda como mancha de camisa que não saiu, como a ideia de uma pedra que ficou no sapato. Incomoda mais ainda fingir e fugir do assunto, como se a gente não tivesse se deixado pelas metades, como se fizesse sentido nos tratarmos como absolutos estranhos. É a minha verdade quando Falamansa canta "eu não sou ator, e se sinto dor, tenho que chorar".

Eu só queria paz. Sem beijos, sem brigas pelo travesseiro, sem ofensas gratuitas ou ciúmes disfarçados. Vamos manter a promessa que fizemos, nem atrás, nem a frente. Lado a lado, mesmo que agora em caminhos paralelos.

31 de dezembro de 2016

Como Elis

Eu quero me curar do que é passado.

Há um peso nas conversas que tenho, nos textos que escrevo, nos compromissos que agendo. Existe um disfarce atrás de cada linha e de cada sorriso que dou. Uma covardia em forma de blog, que me faz acreditar que contar ao mundo seria o remédio que evitaria uma conversa a sós.

Nós, que já estivemos sentados em meu tapete, não temos mais contato, nem trocamos emails ou cartas. Nós, que dividimos cama e sobremesas de palito no congelador, usamos agora uma comunicação telepática. Em cada encontro por acaso, é um olhar que não chega a falar, é quase dizer, mas desistir no meio do caminho.

Na tentativa de te punir com palavras, quem saiu castigado fui eu. Movi alguns móveis de lugar na esperança de fazer parecer jovem, uma casa empoeirada de lembranças e mágoas. Por não limpar a mobilia, o pó subiu, espalhou-se, tornou-se motivo de alergia e irritação. Os dias passaram e não sararam a raiva guardada, e a minha espera foi como segurar a água que sai da pia, uma burrice, um esforço inútil.


O tempo, dizem, é a resposta para tudo. Mentira, você sabe, ele nunca é amigo dos ansiosos. Apesar disso, estou pronto para desfazer este nó no meu estômago, estou preparado para ser livre do sentimento de culpa. Minha consciência está madura e meu coração está aberto para perdoar e esquecer, porque minhas mãos não suportam mais carregar uma bagagem que vale por dois. 

Quero a sensatez de um adulto, e a leveza de uma criança. Quero te abraçar e te reconhecer como outro alguém. Quero cantar como Elis, quando diz "o novo sempre vem".